Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.
Domingo, Fevereiro 27, 2005
Chavela Vargas
Hoje consegui a discografia de Chavela Vargas, graças ao grande professor substituto de Teoria da Literatura da UFBA, o Sr. Antônio Eduardo Laranjeiras, (Hehehehehehehehehehe) que nos momentos vagos faz aquisições de raridades em formato MP3.
Estou tendo orgasmos multiplos de tanto bolero mexicano.
Um grande abraço a todos,
L. F. Calaça.
Segue uma das músicas de Chavela que mais gosto,
SOMOS, que aparece numa das cenas mais belas e eróticas que já vi no cinema, em
Carne Trêmula, de Pedro Almodovar.
SOMOS
Compositor: Marle Clavell
Intérprete: Chavela Vargas
Somos un sueño imposible
Que busca la noche
Para olvidarse en sus sombras
Del mundo e de todo
Somos en nuestra quimera
Doliente y querida
Dos hojas que el viento
Juntó en el otoño
Somos dos seres en uno
Que amándose mueren
Para guardar en secreto
Lo mucho que quieren
Peró qué importa la vida
Con esta separación
Somos dos gotas de llanto
En una canción
Peró qué importa la vida
Con esta separación
Somos dos gotas de llanto
En una canción
Nada más
Eso somos
Nada más
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Sábado, Fevereiro 26, 2005
MEFISTÓFELES
"Ninguém pode te salvar, desgraçado!
Bem vejo, ninguém pode nos salvar!"
OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER,
J. W. Goethe.
Mefistófeles tomou meus desejos e os transformou em vida delirante e pesadelo. Amo Mefistófeles e seus cabelos de sangue. Sua boca é colméia de abelha repleta de rainhas fertilizadas. Sou o poeta Fausto, vivendo a eternidade da loucura e o segredo das coisas partidas. Mefistófeles transformou-me em monstro e rato.
Silêncio no despenhadeiro. O corpo imóvel no asfalto. As noites tombam os segmentos de memória, que sobrevivem ao estado neutro de anulação. Ninguém acordou os vaga-lumes, mas os olhos verdes esperam a correspondência do equivoco e do incesto. Auto de trinta palavras e trezentos atiradores de facas banhadas em ópio. Meus olhos murmuram a razão pura e entediada. Minha mente é tão coerente que prefere desfazer-se em coisas brancas. Nunca li Goethe, mesmo tendo sofrido de amores suicidas. Eu suicidei meus desejos de eternidade, mas ainda sou o rei do mundo. O mundo é feito de quatro paredes ásperas, uma cama de ferro corroído, um ventilador que estala de tempos em tempos, de livros de investigação policial e outros corroídos pela tempestade.
Mefistófeles é um velho de setenta e oito séculos, que mora dentro do calabouço. Atrás das vastas cabeleiras brancas há um quase vazio. Grita as paranóias dos soterrados e subterrâneos. Mefistófeles é bicho-geográfico a escavar galerias kafkianas em minha massa cinzenta. Amo-o, pois não fala em público, apenas reflete instintivos gestos de despacho e assentimento.
As paredes tem sangue de mosquito pisado e em coágulos imundos. O sebo da pele desprendida e deprimida junto às vestes perpétuas. O cata-vento de papel gira e milhares de fios me ligam ao mundo verdadeiro e transmigrado. Li os gritos finais do imperador francês antes da queda da Bastilha. O último lacre foi aberto e as bestas governam o cômodo incomodo das quitinetes. Moro com as velhas raízes de coentro-da-Índia. Há black-out nos hemisférios cerebrais. Tenho vinte cabeças e uma glande. Tenho medo de morrer.
Eu sou Mefistófeles e acendo velas na noite.
(L. F. Calaça | 22/12/2004)
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SERIAL
Lavo minhas mãos que sangram envenenadas. O fluxo contínuo de hemácias misturadas a água cor de chumbo. Matei-a. Matei-a com golpes certeiros e misericordiosos. O olhar perdido no espaço, alheio. Matei-a num não sei o que de mim mesmo. Ela me assustava, pois era eu mesmo representado. O sangue jorra de minhas veias e artérias, como a tinta azul que lambe as folhas de carência voluptuosa. O rato amarelo, ele, como antes me sonda e enlouquece-me com suas manias de superioridade. Envenenei-a durante a ceia. Não a vi morrer, pois adormeci e virei estátua de pedra. Serpentes se arrastam e devoram os camundongos. O rato amarelo ri, diante do genocídio de seus irmãos. "Não sou igual a eles!" Ele rói meu crânio, cavando galerias entre as circunvoluções cerebrais. As meninges envolvem-no como véus de seda. O rato devorou-a. Não é a primeira vez. Nem a segunda, terceira... Milhares de vezes ele a devora, mesmo envenenada. O rato amarelo se reproduz por geração espontânea. Ele vive de mim, em mim, por mim. Ele comanda as imagens. Imagens distorcidas, feitas de manchas múltiplas que se adentram. "Mate os insetos!". Mato milhares, e milhares surgem das frestas, das calhas, dos cantos e pântanos imundos e gotejantes. Sanguessugas sugam-me o pulso rompido, enquanto eliminam um suco vermelho pálido. Na verdade, meus olhos são quase brancos, por falta de sangue grosso e consistente. Durmo tranqüilamente e ouso o som crocante das asas de quitina. Som crocante... O rato e seu ressentimento, seu ódio recalcado e transformado em cálculo renal. Todas elas coexistindo indefinidamente, desde o início dos tempos. Elas e suas asas de quitina. Transformo-me às vezes em coisa minúscula e subterrânea, mas as imagens são manchas de tinta ressonante. Lavo minhas mãos até soltar a pele dos ossos. O sangue escorre dos fio de cobre de minha cabeça corroída. Sempre as mato, para purgar-me. Sou forte, sou forte, sou... Sou aquela criatura repugnante e o rato amarelo me devora. Eu, um assassino serial. Há uma barata no vidro. Degolo-a, e minha cabeça cai, rolando no escuro.
(L. F. Calaça | 04/01/2005 )
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Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005
VISÃO DE SÃO PAULO À NOITE
POEMA ANTROPÓFAGO SOB NARCÓTICO
Na esquina da rua São Luís uma procissão de mil pessoas
acende velas no meu crânio
há místicos falando bobagens ao coração das viúvas
e um silêncio de estrela partindo em vagão de luxo
fogo azul de gim e tapete colorindo a noite, amantes
chupando-se como raízes
Maldoror em taças de maré alta
na rua São Luís o meu coração mastiga um trecho da minha vida
a cidade com chaminés crescendo, anjos engraxates com sua gíria
feroz na plena alegria das praças, meninas esfarrapadas
definitivamente fantásticas
há uma floresta de cobras verdes nos olhos do meu amigo
a lua não se apóia em nada
eu não me apóio em nada
sou ponte de granito sobre rodas de garagens subalternas
teorias simples fervem minha mente enlouquecida
há bancos verdes aplicados no corpo das praças
há um sino que não toca
há anjos de Rilke dando o cú nos mictórios
reino-vertigem glorificado
espectros vibrando espasmos
beijos ecoando numa abóbada de reflexos
torneiras tossindo, locomotivas uivando, adolescentes roucos
enlouquecidos na primeira infância
os malandros jogam ioiô na porta do Abismo
eu vejo Brama sentado em flor de lótus
Cristo roubando a caixa dos milagres
Chet Baker ganindo na vitrola
eu sinto o choque de todos os fios saindo pelas portas
partidas do meu cérebro
eu vejo putos putas patacos torres chumbo chapas chopes
vitrinas homens mulheres pederastas e crianças cruzam-se e
abrem-se em mim como lua gás rua árvores lua medrosos repuxos
colisão na ponte cego dormindo na vitrina do horror
disparo-me como uma tômbola
a cabeça afundando-me na garganta
chove sobre mim a minha vida inteira, sufoco ardo flutuo-me
nas tripas, meu amor, eu carrego teu grito como um tesouro afundado
quisera derramar sobre ti todo meu epiciclo de centopéias libertas
ânsia fúria de janelas olhos bocas abertas, torvelins de vergonha,
correias de maconha em piqueniques flutuantes
vespas passeando em voltas das minhas ânsias
meninos abandonados nus nas esquinas
angélicos vagabundos gritando entre as lojas e os templos
entre a solidão e o sangue, entre as colisões, o parto
e o Estrondo
Roberto Piva,
Paranóia (1963)
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Domingo, Fevereiro 20, 2005
The Dreamers, Bertolucci (2003)
SUBVERSÃO ou O SONHA-DOR
Tenho minha alma presa
naquele quadro
daquele claustro,
de onde brotam entulhos
que recobrem o tempo.
Subverto as coisas belas,
transformando-as,
mutilando-as,
para não sentir-me frágil
como vidro tinto de dor.
E o grito atravessa o vazio,
quando os passos
param na escada,
e as lembranças consomem
a última sensação de abraço.
Tenho minha alma
aguilhoada na neblina,
enquanto os homens sufocam
afogados no delírio,
cegos da retina.
Subverto-me, pois o grito
exala a última sensação de vida
que é puro sentido
de ausência e toque.
(L. F. Calaça | 10/01/2004)
CARNE TRÊMULA
O desejo latente na ponta dos dedos
A imagem de dois corpos entrelaçados
Somos o refrão de uma canção profunda
quando a alma se desfaz em gozo e pranto
Tremem as palavras entre sussurros
de um tempo perdido em imenso escuro
As luzes são lanternas enfeitiçadas
As folhas traem o fim do outono
Beijo
Aquele calafrio entre sinais
O instante em que o mundo se desfaz
E nascem agonias.
Beijo
E o segundo emudece
E o olhar desliza imóvel
pelo contorno desta sombra
O desejo
A carne
O frio
Somos o refrão que finda
mudo e vazio
Dedos trêmulos
como a carne.
(L. F. Calaça | 04/02/2005)
LOUCURA
Eu procuro a não morte
naquele quarto soterrado por insônias.
Temos medo das minimidades
que nos conduzem às janelas abertas,
pendurado eu pelas cordas da loucura.
Eu procuro a noite iluminada,
e me derrubam no meio do caminho,
perdido entre canteiros superficiais
e goteiras que se precipitam do céu
feito lágrimas em transe.
Às vezes adormecidos, às vezes entreabertos,
os olhares multiplicam as cores tintas
da luneta e do microscópio lunar.
Eu procuro o silêncio e o sussurro
das estrelas extintas no céu milenar.
Temos medo da solidão entre cadeiras,
na mesma maneira incógnita e nula
de responder perguntas sem objeto,
e cavalgar entre nuvens de tijolos
até o fim do corredor de acrílico.
(L. F. Calaça | 13/02/2005)
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PASSIONAIS
I
- Você me ama?
- Não.
II
- Sabe, estou sentindo um cheiro...
- Que cheiro?
- Um cheiro de coisa. Coisa desagradável, azedando ao Sol. Cães mastigando. Homens mastigando. Vísceras, restos de almoço, cartas rasgadas e papéis de seda.
- Lixo, é cheiro de lixo.
- É... sou eu me dissipando.
III
- Você se lembra de quando nos conhecemos?
- Vagamente.
- Eu, lá sentado, buscando uma menina de cabelos vermelhos...
- É.
- Não nos falamos.
- Por quê?
- Nunca nos falamos.
IV
- Quantos anos tem o mundo?
- Todos.
- O mundo morre?
- Sim.
- Quando?
- A todo instante.
V
- Por que você não me ama?
- Não sei.
- Já me amou um dia?
- Não.
VI
- Gosto de ficar sentado, olhando meus dedos de unhas roídas. Rôo minhas unhas sempre que leio parábolas, provérbios, cartas, romances, bulas de remédio, folhetos de supermercado...
- Gosto de ficar deitado, ouvindo música lenta e depressiva, fados portugueses e boleros latinos. Ouço e desapareço, sentindo sem tato, amando sem toque, a tristeza apaixonada dos violinos e das cordas.
- Vamos dançar um tango.
- Um tango imóvel, no escuro.
VII
- Já amou alguém?
- Vivo amando sempre.
- Quem.
- Eu mesmo.
VIII
- Desculpe.
- Deixe pra lá.
- Desculpe mesmo, de coração.
- Está certo.
- Desculpe por eu existir.
- Nada podemos fazer.
- Desculpe...
IX
- Quando eu morrer, quero que me queimem.
- Que mais?
- E comam minha carne.
X
- As horas e as ondas... Deixei meu relógio vagando nas ondas incertas do mar de meus sonhos. As horas e as ondas envolvem meu beijo e meus membros nus. Deslizo como o tempo, que vagamente dilui os rostos. No céu, as janelas envidraçadas e os lábios do Sol que me conduz em sua carruagem.
Falo-me.
XI
- Não sei nadar.
- Não tenho asas.
- Alguém, além de mim?
- Dá-me a cadeira de rodas.
XII
- Ao menos sentiu algo?
- Não sei dizer.
- Gozou?
- Não.
- Você é frígida?
- Desde criança, só amo sozinha.
- Platônica.
- Não, narcisista.
XIII
- Tomei chumbinho, cortei meus pulsos, joguei-me do quinto andar. Quebrei três vértebras lombares e duas torácicas, furei-me os olhos, mas não morri.
- Credo, por que fez isso?
- Alguém arrancou meu coração com uma faca de cozinha.
XIV
- Ontem amanheci sem roupa.
- Você não se lembra de nada? Fizeram algo em você? Já foi ao médico?
- Não.
- Por quê?
- Sentia frio.
XV
...
- É amarelo.
- E o carrinho?
- É azul.
- E a bola?
- É verde.
- E seu amigo?
- É invisível.
XVI
- O que fazemos?
- Aguardamos o instante em que não haja mais ninguém.
- Sim, e depois?
- Não haverá mais ninguém, nem mesmo nós.
- E enquanto isso?
- Esperamos o primeiro ir embora.
- Ficarei.
- Até o dia.
(L. F. Calaça | 07/02/2005)
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O COLECIONADOR DE CAIXAS DE FÓSFORO
Gosto do som estranho que faz o fósforo ao riscar e virar chama azul. Tenho em mim um desejo terrorista, incendiário. Tudo se transforma em cinzas brancas suspensas num palito retorcido carbonizado. Imagino passeatas de homens, mulheres, crianças, paraplégicos, cães cegos e dançarinas de música flamenca. Imagino aquele corpo despido como Vênus, emoldurada pela janela envidraçada de cortinas cor de vinho. Coleciono caixas pequenas, minúsculas, vazias. Passo as noites acendendo tochas encantadas, queimando as pontas dos dedos, sentindo dor e agradecendo o ainda sentir. Fogos não explodem no ar. Assusto-me com o estrondo que sai desesperado de meu estômago. Inflo como um balão desgovernado e vago, sem rumo, imóvel. Não é sonho, é som. Som estranho, que faz o fósforo ao riscar e virar chama azul. Queimo estéril, como tronco seco que jamais deu folhas verdes. Arbusto de espinho que se transforma em coroas a atravessar o crânio, as meninges e o cérebro. Circunvoluções. Labirintos incandescentes. O céu é uma grande boca vermelha e aberta e nascem rosas brancas do asfalto, como em poema e pintura. Coleciono caixas de fósforos vazias, pois acendo uma labareda a cada instante, durante toda a noite, por medo. Medo de me perder no escuro, de ser devorado por fantasmas sem corpo e sem olhos. As labaredas me guiam pelo espaço intermediário, pela passagem que não transponho nem recuo. Cambaleio. Atiro farpas, flechas, balas de prata, rosas azuis e violetas minúsculas, desossadas. Gosto do cheiro de fósforo queimado, queimando..., gosto de pólvora, gasolina, álcool, cheiro de livro velho repleto de placas de ferrugem. Às vezes durmo, quase sempre após a última hora, após a última chama, após a gota de sangue que queima e evapora. Às vezes sou tão louco e tão sereno quanto o grito perdido na madrugada, entre corpos dormentes, acordeons e sapateados sonoros de dançarina espanhola. O que guardo nas caixas vazias?! Nada há, pois tudo queimou e se desfez em pó.
(L. F. Calaça | 08/02/2005)
postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 10:05 PM Comments: